Havia vários folhetins matinais que circulavam pela cidade, e podiam ser comprados por poucos tostões. Dentre eles, o mais popular era o Bo-gi, que levava o nome do editor. Este se popularizou por publicar contos com capítulos diários e fofocas do palácio que, se fossem julgadas interessantes pelo editor, eram publicadas ao acaso durante o dia.
Mesmo diante de publicações tendenciosas, com intenção clara de pôr o Imperador em maus lençóis, o mesmo era um defensor ferrenho da liberdade de imprensa. Considerava sagrado o direito de livre expressão.
Bem, isso em público. Usou várias vezes seu poder para prejudicar a família Bo-gi, chegando até a tirar deles sua casa e os instrumentos de trabalho, por causa de uma dívida com a Casa Monetária Imperial.
Mas o velho Cho Bo-gi era imbatível. E é até hoje.
Em seus olhos cansados brilha uma chama incessante, um vigor adolescente, emoldurado por grandes olheiras de trinta anos acordando antes do sol nascer.
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- O que há de errado, Magno? - Perguntou ao Comissário da Guarda.
- Jidoja, é o Bo-gi. De algum modo, já sabem sobre o sacerdote assassinado. Nem eu sabia, soube quando li!
- E qual é o problema? Um sacerdote do interior a mais ou a menos, qual é a diferença?
- O problema é que questionam a relação do Widaehan Jidoja com o Templo, e o quanto o senhor se importa mesmo com os seus designados! Leia por si mesmo...
O homem de farda cinza entregou o folhetim.
Nem Mesmo Flores!
O Grande Líder designou há oito anos Sho-Hakou como o Honorável Segundo Sacerdote do Templo Myuung da Aldeia de Shirai-Gwon. Este grande homem serviu ao Líder até seus últimos dias, desenvolvendo muito a Ciência Boticária da nossa grande Nação. Mesmo assim, nem flores, nem uma mísera nota de pesar foi enviada pelo governo ao seu funeral.
Terá o nosso Grande Líder perdido seu tato? Sua fé? Seu amor pela Ciência?
Sadrhack ficou em silêncio.
- Aquele velho deve estar caducando. Ele precisa de um corretivo! Meus homens estão na casa dele, mas resolvi falar com o senhor antes de prendê-lo, Jidoja.
- Fez muito bem, Magno. Eu vou com você. Quero falar com ele.
- Como quiser, Widaehan Jidoja.
O líder caminhou até a porta do gabinete e dirigiu-se a secretária.
- Prepare meu cavalo, vou atravessar a cidade.
- Não prefere uma carruagem, Jidoja?
- Não, preciso de ar puro.
- Seu desejo é uma ordem - Disse ela voltando-se para um pequeno tubo na parede - Ohon, você está aí?
- Sim, Ja-Han - disse uma voz áspera, quase fanha, dentro do tubo - pode falar.
- Prepare um andaluz. O Widaehan Jidoja aguarda à porta.
- Entendido - respondeu a voz no tubo.
E desceram pelos fundos, onde os cavalos já aguardavam.
- Onde está minha escolta? - Indagou o líder.
- Ela não é mais necessária, senhor - respondeu o Comissário.
- O que quer dizer?
- Bem, essa semana foi concluído o treinamento dos primeiros soldados de elite, no Templo Moon. E destacamos um deles para proteger o senhor.
- Só UM? - respondeu incrédulo.
- É mais do que o suficiente.
- Interessante. Quero vê-lo em ação.
- Espero que nunca seja necessário, Jidoja. Mas ele já está em ação agora mesmo.
Ao dizer isso, o Magno usa sua espada para refletir a luz do sol duas vezes na direção de uma árvore frondosa a frente. E de lá, alguém faz o mesmo.
- Espero que ele seja eficiente. Não quero ter problemas.
- Ele não. Ela.
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Chegando a casa da família Bo-gi, o líder avista cinco soldados guardando a porta.
Quando entra pelo portão, o cachorro da família, avança sobre ele como um tigre faminto. Salta a meio homem de altura e, em pleno ar, recebe um chute ruidoso nas costelas.
- Não desta vez - diz o líder, sorrindo.
Entra na casa e ouve a voz rouca do velho editor:
- Precisava mesmo de tudo isso, Sad? - disse o homem sentado, levantando uma sobrancelha.
- Não, não precisava. Eu sei que você não fugiria, meus homens é que não te conhecem como eu conheço.
- Então tire-os da minha casa! - berrou o velho Bo-gi.
- Fale baixo, com quem pensa que está falando? - interrompeu Magno.
- Bem, não tenho o dia todo. O que você quer, me confrontando assim? Quer uma nova revolta? Quer me tirar do poder? Quer o império de volta?
Sadrhack andava de um lado para o outro. O assoalho ditava o ritmo de sua impaciência.
- Hahaha... Há vinte anos que o Jidoja sempre vence as eleições. Tentar algo contra o senhor seria um ataque a nossa democracia!
- Então o que você quer? Que o povo deixe de gostar de mim?
- Fique tranquilo, Sad. Isso não vai acontecer. Há quem diga que o senhor é abençoado pela Divina Ciência! Um intocável! Só quis dar minha opinião sobre as ações do governo.
- Pois volte a escrever fofocas, ou fecho esse lugar para sempre! E é melhor começar a falar bem de mim se quiser continuar a publicar seu folhetim!
O Comissário olhou em volta. O Grande Líder não se comportava assim normalmente. Não em público.
- Não pode me matar - replicou o velho - posso ser idoso, mas ainda tenho poder e influência para acabar com você perante o público! - cuspiu essas palavras, empalidecendo.
- HAHAHAHAHAHAHAHA!! - riu histericamente - INFLUÊNCIA? PODER?? E você lá sabe o que é isso? Seu pasquinzinho ordinário pode fazer o quê contra mim? Vim até aqui porque te conheço a muito tempo, e queria ouvir suas desculpas olhando nos seus olhos de cachorro velho.
Sacou sua espada e com a ponta da lâmina ergueu o queixo do velho que olhava para o chão. Se aproximou, abaixou-se e disse lentamente ao lado de seu ouvido:
- Poder de verdade é quanta gente você tem que mate ou morra por você. O resto é ilusão, seu velho idiota.
Virou-se nos calcanhares e saiu sem dizer mais nada.
Sacou sua espada e com a ponta da lâmina ergueu o queixo do velho que olhava para o chão. Se aproximou, abaixou-se e disse lentamente ao lado de seu ouvido:
- Poder de verdade é quanta gente você tem que mate ou morra por você. O resto é ilusão, seu velho idiota.
Virou-se nos calcanhares e saiu sem dizer mais nada.
- Liberte esse velho caduco, ele não vai me desafiar de novo - disse ao Comissário, que viu tudo de olhos arregalados. O Líder suava, respirando fundo para se acalmar.
Enquanto os homens saíam da casa, o velho Bo-gi ainda estava sem fôlego. Não é todo dia em que o Líder da Nação resolve ir até a sua casa gritar com você.
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