Enfiei a espada no pescoço do velho, com o fio virado para cima. A lâmina recém afiada desliza deliciosamente... A carne abraça o aço e o sangue o acaricia gentilmente. Ergui a ponta e enfiei até onde deu.
Rasgo várias artérias. Rajadas quentes espirram no meu rosto. E no rosto dele, o companheiro de batalha. O Líder! Meu amigo, que ganhou esse apelido por ser, de fato, o a mente que arquitetou toda a revolta contra o império.
Eu só cumpria o que ele me pedia. Mas eu gostava... Ah, como eu gostava! Matamos famílias inteiras naquela noite. E em silêncio, sem que se dessem conta do que acontecia. Casa a casa, matando todos e apagando as luzes. Esse era o sinal combinado.
Espreito uma moça. Ela está em sua penteadeira, escovando seus longos cabelos. Ela está de branco, vestida para dormir. Tão jovem... Não viveu nada. Não sabe nada. Seus pais e irmãos já estão mortos.
Chego por trás. Ela vê um vulto no espelho. Sente um puxão no cabelo, e é forçada a olhar para o teto. Por uma fração de segundo, sinto seu perfume. Doce. Sinto um cheiro delicioso, como se fosse feita de mel.
Meio segundo depois, seu pescoço está aberto. O suficiente para caber uma mão inteira nele.
O mel dá lugar ao sangue, que agora escorre do espelho para a penteadeira.
Eu só estou cumprindo ordens.
Dormira no quartel da Gvarda, no campo atrás do Forvm.
"É melhor eu me vestir, o dia vai ser longo".
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O sol entrava preguiçosamente pelas janelas. Sadrhack penteou cuidadosamente o cabelo. Vestiu a camisa, calça, colete, gravata e o terno. Colocou cada medalha e broche no lugar.
Pegou sua espada embainhada e seu arcabuz, sempre carregado.
Alguém bateu na porta. O Líder abriu.
- Bom dia, Ram-De, querido. - Uma senhora de olhos bondosos segurava uma bandeja com café e cereais.
- Bom dia, So-Jung! - Beijou a testa dela, pegou a bandeja e levou até uma mesa.
- Por quê já se trocou? Esqueceu que é sábado? - Riu a senhora, de pé na porta.
Sadrhack levantou a colher sorrindo:
- A nação precisa de mim, Sosso!
- Claro que sim!
So-Jung é o mais próximo que o Líder tem de uma mãe. Ela era a dona da pousada onde os rebeldes se reuniam. Também era a enfermeira do grupo, quando alguém voltava dos protestos machucado ou com uma orelha a menos.
Naquela época, a população estava insatisfeita com os impostos, que chegavam a trinta por cento sobre todas as atividades econômicas. E ficava ainda mais insatisfeita a cada escândalo da Casa Imperial que vinha a público, como as festas promíscuas que aconteciam regadas a bebidas caríssimas, com participação dos filhos do Imperador, aristocratas e burgueses. As prostitutas corriam nuas pelos corredores e o Imperador Chunk-Bre dizia não saber de nada. Não participava, mas não impedia.
Enquanto os Sang-eo¹ se esbaldavam na farra, os rebeldes estavam em cada botequim, em cada esquina, em cada roda de amigos, difundindo idéias sutilmente. Era um trabalho orgânico, sem pressa alguma. Até atingir o corpo docente, o que ampliou a difusão do discurso anti-império.
Um trabalho de formiga que durou anos. Não tínhamos um nome, uma identidade ou partido.
Esse movimento foi duramente atacado pela imprensa nos primeiros anos, até um dos nossos começar a trabalhar como auxiliar no folhetim "Pyeong-Moon Agora", onde aos poucos, lançou um olhar mais profundo aos movimentos populares da época.
1. Sang-eo: Classe abastada, alta sociedade.