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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Governando Guǎn tā Kahore

Correu pela floresta, sem olhar pra trás, como se fugisse de um demônio. Por entre a copa das árvores mais altas, passava um pouco de luz do sol. A vegetação cobria ruinas do que um dia foi um vilarejo, ou uma cidade, não há como saber. Entre os restos de uma civilização remota, vivem plantas venenosas, animais selvagens e artrópodes predadores. Seus pés batiam contra o chão repleto de folhas com uma velocidade enorme. Ás vezes saltava para um galho de árvore, depois para a seguinte, voando alto e finalmente alcançando o solo para correr outra vez.

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O gabinete é requintado e agradável. Afinal, o governante passa nele a maior parte dos seus dias. Tem um certo ar enebriante. Dando uma sensação quase que bucólica.
A propósito, tem até uma cama num cômodo atrás. Muitas decisões importantes lhe ocorreram ali.

O sol matinal entra preguiçosamente pelas grandes janelas entre as cortinas de cetim verde, com cordões dourados.
Gostava de pensar que era um homem de gostos simples, embora isso estivesse muito longe de ser verdade.

Passara a tarde toda do dia anterior no Congresso, onde decidiram por manter a restrição aos animais de estimação nos centros urbanos do país. "Vivemos em tempos difíceis. Isso não cabe em nossas prioridades." - Era o que se ouvia pelos corredores do Congresso. Não que fosse proibido ter um cão ou gato, porém, é necessário obter uma licença para isso proveniente de um elaborado trabalho jurídico. E também pagar uma taxa.

Três funcionários batem a porta do gabinete. Vieram substituir o cravo por um piano.

Sadrhack se serve de um vinho encorpado, confiscado em uma missão ao exterior. Uma das Agências enviou especialmente a ele dizendo ser um troféu de uma sangrenta batalha. Muitos inimigos perderam suas vidas para nossas espadas, o que adocica ainda mais o aroma cítrico de notas amadeiradas dessa reserva.

Observa pela janela, onde vê funcionários do Forvm da Repvblica entrando e saindo apressados.

"Esses são os homens que eu jurei servir e proteger. Por eles eu derrubei o Imperador e instaurei a Repvblica Guǎn tā Kahore." - Pensou ele, lembrando da luta armada que durou quase uma década e ceifou milhares de vidas. Se seu pai estivesse vivo, diria sua palavra predileta: "Medíocre". Este fora um grande fazendeiro, em uma época dourada do Império. Ficou muito rico exportando grãos para povos do norte. Mais rico ainda quando expandiu a Marinha Mercante, sendo condecorado diversas vezes pelo Imperador por serviços prestados ao nosso povo. Era conhecido como Hǎijūn shàng jiàng¹ Sadrhack. A última vez em que viu seu filho, foi segundos antes de ser decapitado pelo levante revolucionário liderado por sua prole.

Os homens saem levando o cravo, que agora vai repousar no Mvsevm de Belas Artes de Pyeong-Guará, do outro lado da cidade. É um instrumento caríssimo, vindo de terras distantes, para enaltecer nossa nação. Poucos pessoas puderam tocar nele, só o maestro local que o afinou e o próprio líder.

Um funcionário jovem entra correndo no gabinete, suando e com o rosto vermelho. Outro entra pausada e respeitosamente logo atrás.

 - Widaehan Jidoja² Sadrhack! Widaehan Jidoja Sadrhack! - Parou ele ofegante.

 O outro pensou: "merda".

O primeiro funcionário recebe um golpe de espada  no ombro direito e cai de joelhos. Sadrhack limpa a lâmina em seu traje militar de linho e se dirije ao segundo:

 -  O quê é tão importante?
 - Widaehan Jidoja Sadrhack, perdoe meu aprendiz. Ele é burro - explicou de cabeça baixa, observando o rapaz - não sabe respeitar os outros. Talvez os experimentos o tenham deixado...
 - FALE DE UMA VEZ!! - Vociferou o líder.
 - Bem... O Honorável Segundo Sacerdote de Shirai-Gwon foi assassinado. O governo local pede desculpas pelo inconveniente e diz estar tomando providências quanto ao ocorrido.
 - Ora ora... Isso pode ser inconveniente, mas pode ser interessante. Bem, na verdade, desde que isso não traga problemas meu gabinete, não me interessa. Agora saia daqui, por favor. - Diz ele, distraído ao polir sua espada.

 O líder olha pro rapaz de joelhos. Ele, por sua vez, devolve o olhar com olhos marejados.

  - Levante-se rapaz, ou vai ficar de joelhos o dia inteiro?
 - Desculpa, Widaehan Jidoja.
 - Muito bem. Vá cuidar de seu ferimento e aprenda as artes sociais com mais afinco. Se fosse um de meus generais em meu lugar, seu sangue estaria jorrando pelo chão agora.

Jorrando. Não apenas gotejando como agora.

 - Sim, Widaehan Jidoja. E retirou-se.

--//--

 Finalmente chegou até o esquadrão, suando muito.

 - Cathos! Relatório! - Exclamou o capitão, franzindo a testa.
 - Três Insanos de pequeno porte, senhor. Duas lanes a frente.
 - Três?Agora sim, estamos mortos!
 - Sierra, isso não é hora pra otimismo, vá aprontar os cavalos. König! Desfaça o acampamento.

Sierra anda até os cavalos e começa a celar cada um, enquanto comenta com König, que apagava a fogueira:
 - Quando você se inscreveu pra servir, imaginava que iria acabar percorrendo ruínas e fugindo de monstros?
 - Quem imaginaria que uma merda dessas existia?
 Os dois riram.
 - Chegamos muito longe, Sierra. A gente já devia estar voltando pra casa, não se metendo mais no meio do mato. – O arqueiro coçou a barba rala no queixo.
 - Isso é verdade, parceiro. Mas vamo lá, nenhum de nós tem nada melhor pra fazer mesmo!
 Sierra sorriu amarelo.
 - Não que eu esteja com saudades de casa – continuou o arqueiro – Mas sabe como é... Não quero morrer aqui.
 - É... Tô contigo nessa. Essas missões sempre acabam com alguém sendo entregue num saco de pano pra família.


1. Hǎijūn shàng jiàng - "Almirante".
2. Widaehan Jidoja - "Grande Líder".

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