"Como isso pode me prejudicar? Como posso usar isso ao meu favor?" - pondera o líder.
Subitamente ele para, depois caminha pra porta. Passa por sua secretária na mesa de frente pro seu gabinete, dizendo:
- Bom dia, Ja-Han. Já volto.
- Bom dia, Widaehan Jidoja, sua correspondência chegou. Vou pôr na sua mesa.
- Obrigado.
Irrompeu pelo saguão do Palácio da Liderança, apressando-se para não ser parado por ninguém. O que foi evitado pelos agentes de segurança. O líder é uma figura muito popular, e todos querem falar com ele. E não é todo dia que ele resolve sair assim, pela porta da frente.
Deu meia volta no quarteirão e entrou numa pequena porta.
O tintilar da sineta no beiral da porta anuncia a entrada de um cliente.
O velho barbeiro abre um grande sorriso com seus dentes amarelos por entre o bigode em forma de tenda.
- Grande Líder, Luz do Oriente! O Homem Verdadeiro que Nos Guia Para a Vitória! Que alegria tê-lo de volta a minha humilde barbiere!
- Bom dia Siviglia. Você tem mesmo que dizer isso toda vez que eu venho aqui?
- Me desculpe, Widaehan Jidoja, não posso conter minha alegria!
- Entendo. - Disse o líder, sorrindo. - Preciso aparar minha barba.
- Será um piacere.
O líder se acomoda na cadeira e o homem começa o seu trabalho.
- E como está nossa Grande Nação?
- Bem, salvo pequenos contratempos. Um Segundo Sacerdote de uma aldeia no interior foi morto ontem.
- Oh... - Franziu a testa o barbeiro - De onde?
- Shirai-Gwon.
- Ouvi rumores de que se desenvolve muita ciência lá...
- Crendices e cultos não me interessam, Siviglia... O que me preocupa é a política. O homem não era ninguém importante, mas era o segundo em comando no Templo Myuung, e agora vou ter que nomear alguém em seu lugar.
--//--
Capitão Rizzo começa a carregar sua pistola de dois tiros, que seriam o suficiente para derrubar um Insano, não para matar. Ele sabia disso. Sabia que não podia encarar os três a frente, ou quantos mais que houvesse. Por isso enviara Cathos em reconhecimento, por ser furtivo e ágil.
A cavalo e com as orelhas de pé, seguiram a diante e viraram na primeira lane a esquerda. Depois a direita, para contornar os inimigos. Eram como ruas de pedra, mas feito com um tipo de goma negra endurecida. O cavalo de Sierra puxava o de Cathos, que ia frente hora pelas árvores, hora por cima de construções antigas e escombros. Até que parou e assobiou para o grupo. Todos pararam.
--//--
O barbeiro se inclinou para a bancada e trocou sua lâmina por uma mais afiada.
- Bem, Widaehan Jidoja, desde que deixei o Palácio do Governo e me afastei da articulação política, não estou a par de quem poderia ser indicado ao cargo...
- Você faz falta lá, Siviglia. Seus conselhos me ajudaram muito todos esses anos - diz ele ao se lembrar do tempo em que lutavam contra o Império Esquecido.
- Grazie, Widaehan Jidoja... Mas sou um homem velho, tenho que saber a hora de parar. E as ameaças de morte estavam ficando frequentes...
- Tudo bem, ragazzo, não vim te trazer de volta. Vim pedir um conselho de como agir.
- Bem, podemos aproveitar a oportunidade para fortalecer nossa relação com o povo do interior e mostrar a grandeza e generosidade de nosso Grande Líder!
- Prossiga.
- Nomeie sacerdote alguém ilustre, de quem o povo gosta muito, como um músico ou outro qualquer.
- Um vagabundo?
- Sim! Mas é importante que seja alguém que fale bem de você sempre que tiver a oportunidade de abrir a boca.
- Prefiro indicar alguém que não vá causar problemas.
Siviglia se ilumina, como se tivesse inventado a roda.
- Um professor! Selecione um professor do Templo local!
- Sim! Vou providenciar!
--//--
De cima de uma árvore, podia ver uma grande construção a algumas léguas, perto do mar. Tinha a forma de dois grandes jarros de proporções gigantescas, circundada por prédios destruídos. Saltou de onde estava, agarrou um galho da próxima árvore, girou e caiu de pé.
- Estamos perto das minas de chumbo, posso vê-las daqui.
- O sabor de metal está ficando mais forte, esse local é amaldiçoado como dizem. – Diz König. – A gente não devia estar aqui, meu...
- Dizem que são os demônios cortando nossas almas com espadas espirituais... Madre de Dios!
Sierra, se encolhe de olhos arregalados, assustado com o que ele mesmo disse.
- Os únicos demônios que você vai ver hoje são os Insanos, fique tranquilo. – Riu Cathos.
- Acho que prefiro os espirituais!
- Silêncio! Ouvi algo.- Diz o capitão erguendo a mão direita.
--//--
Passados alguns minutos, o barbeiro termina seu trabalho.
- Prontinho, Widaehan Jidoja!
- Quanto?
- Não quer que eu mande a conta para a Acessoria do Líder?
- Não.
- 58 mil Kim.
- Certo. Pegue Sessenta. Fique com o troco.
- Obrigado, Widaehan Jidoja!
O Líder faz questão de pagar pelos serviços e saber o preço das coisas. Para ele, isso o aproxima do cotidiano de seu povo.
No meio do caminho, avista dois mendigos. Pega uma moeda de mil Kim e joga entre eles.
Os observa de canto de olho enquanto os homens se entreolham e partem desesperados pelo metal, e antes mesmo que a moeda pare de girar, começam a brigar por ela.
"Pobres escravos da ganância". Pensa consigo. "Podiam pensar num modo de usar o dinheiro juntos". Continuou a observar com certo deleite a cena que se desenrolava.
Os homens se estapeavam desajeitados, enfraquecidos pela fome.Até que um caiu ao chão, xingando raivosamente. O outro saiu andando feliz em direção ao armazém no fim da rua.
De volta ao palácio, Ja-Han lhe informa que alguém o aguarda.
Ao entrar em seu gabinete, um homem baixo, de cabelo oleoso e feição cansada o espera de pé, imóvel. Sua farda puída denuncia os anos de serviços prestados.
- Bom dia, Magno.
- Bom dia, Widaehan Jidoja. Precisamos conversar.
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