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domingo, 19 de junho de 2016

Avla Magna.

  - Bem, como o senhor sabe, a expedição que vinha do leste atrasou um pouco, mas chegou ontem a tarde.
 Uma "lola" Passa por trás dos dois e coloca mais um prato, na frente do Conselheiro. Outra serviu o Líder.
  - Sim, Ja-Han deixou uma nota na minha mesa.
  - Não não, obrigado, vou almoçar em casa - Diz o Conselheiro para a moça, que retira o prato e faz uma reverência dobrando os joelhos em um pé só.
 O vinho é servido.
  - O Supremo Sacerdote Kai vai apresentar na Avla Magna desta noite os resultados públicos da expedição. Na próxima semana receberemos o relatório completo da missão.
  - Excelente - Diz o Líder mastigando uma garfada de kunati de ervilhas e nozes - espero que tenham logrado êxito sobre os povos do leste dessa vez, essas expedições são muito caras.
  - Soube que foi uma expedição muito proveitosa, mesmo as terras sendo ainda muito hostis. Bem, como é de praxe, o senhor vai comparecer nessa Avla, certo?
  - Hmmm... Odeio esse blablablá sobre ciência, mas vou sim. Pode ser que haja algo importante que vão dizer ao público.
  - Entendo, senhor.
  - Nosso povo perde tempo demais com crendices tolas, e se esquecem do valor do trabalho! - Disse arrancando uma coxa do frango a sua frente.
  - Sim, senhor. Até mais tarde.
O Conselheiro se levanta, coloca a cadeira no lugar e sai.

  Na parede ao fundo da sala, cobrindo um buraco na decoração de cedro, foi pendurado um alvo de madeira. Ainda não conhecia sua protetora pessoal e nem se interessava por isso, desde que ela fizesse seu trabalho corretamente. É próprio do ser humano não se interessar por "como as coisas funcionam", desde que funcionem.
  Toc... toc... toc... toc...

 - Ja-Han! Não precisava vir hoje. - Afastou o prato, alcançou um palito e recostou na cadeira.
 - Boa tarde, Jidoja. Fui avisada que o senhor estava aqui. Achei que poderia precisar de mim.

A secretária estava sempre maquiada, as vezes até demais. Se vestia muito bem também, sua elegância contrastava com a realidade miserável do país.
 - Perdeu seu tempo - bebeu o último gole que havia no copo - já acabei o que tinha que fazer. Ah! Eu ia mandar te avisar, vou ao Templo esta noite.
 - Estarei lá cinco minutos antes do senhor, Jidoja.
 - Excelente. Já comeu? - Perguntou o Líder, fazendo sinal para uma das copeiras.
 - Já sim, senhor. - A mulher de pele morena sorriu e baixou um pouco a cabeça.
 - Então, me acompanhe em um copo de vinho - e virou-se - Lola! Mais vinho!

 A secretária e assistente pessoal corou e não respondeu. Não era de beber, mas não é sempre que o  Líder resolve ser tão informal assim. Ja-Han Iaamar Al-Qar tinha cabelos negros e compridos, sempre presos ou em tranças. Suas feições do mediterrâneo, que sempre tinham uma aura severa, agora estavam iluminadas, embora esteja um pouco constrangida. Tinha baixa estatura, característica deixada pela pobreza da infância, mas que lhe rendia um charme peculiar.

 A copeira serviu a ele primeiro, enquanto outra trazia um cálice para ela.
 Beberam em silêncio, interrompido por uma ou outra trivialidade.

 Despediram-se cordialmente, como Sadrhack gostava. Nunca beijava as mãos das mulheres como era costume na época do império. E, graças a ele, agora todos apertam as mãos das mulheres como se fossem homens.

 A secretária foi embora pisando em nuvens. Repassava aqueles momentos continuamente, tentando lembrar cada detalhe. Vez ou outra, tentava se puxar de volta à realidade, dizendo pra si mesma "foi só um vinho, só um vinho! Ele só queria compania...".


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 Sierra cravou a montante no chão e começou preparar um pequeno artefato. As cobras passaram pelo labirinto de caixas enormes e começam a chegar na porta. Para um homem baixo e troncudo, era bem ágil. Acendeu o artefato, jogou para dentro enquanto pegava sua montante e pôs-se a correr para os cavalos. Quando montou o galpão explodiu, levantando uma nuvem de poeira e folhas por entre a floresta. Tudo agora cheirava a enxofre, poeira e bicho queimado.

 Os quatro tossiam muito. Os cavalos assustados foram contidos por seus respectivos cavaleiros até se acalmarem.
 - Vamos andando, não podemos perder mais tempo aqui. Precisamos encontrar as minas.
 - Capitão, pela instrução dada pra missão, já era pra termos encontrado. Alguna cosa está errada.
 - Ora, mas como você é observador! Eu sei que está, erramos o caminho em algum ponto. Devíamos ter ido mais ao norte.
 - E aquilo que eu vi perto do mar? – Indagou Cathos de cima de uma árvore.
- Não sei, mas já que chegamos aqui não podemos voltar de mãos abanando. Estamos em território hostil, numa missão fracassada e cara. Precisamos de resultados ou vamos todos dividir uma cela confortável com uma bola de ferro nos tornozelos.
 König coçou o nariz.
 - É... Vamos fazer reconhecimento, recolher algumas amostras e cacarecos e ir embora.
 - Tá, - tossiu Cathos – mas agora vamos sair dessa poeira porque já tô ficando zonzo.

 E começaram a andar novamente em formação.

O que não durou muito.
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 O Templo Moon estava decorado para uma grande festa. Grandes faixas verdes e amarelas pendiam do teto no salão principal.
Como era de costume, vinte e um jovens enfileirados na entrada recebiam o público com vasilhas contendo água perfumada para as mãos, com toalhas brancas em seus ombros. Todos de vestes pardas.

sábado, 18 de junho de 2016

Burocrata.

  Chegaram até um grande depósito com o teto côncavo, parcialmente descoberto. As portas pareciam ter sido arrancadas por um grande animal, de dentro pra fora. O chão de pedra lisa estava intacto apenas nos cantos. No centro, uma grande árvore ocupava quase todo o espaço interno acima de dois metros, deixando espaço apenas para alguns corredores de caixas de metal grandes o suficiente para um homem morar dentro.

 - Verifiquem, vocês sabem como funciona.
 - Positivo. – Responderam em uníssono.

 Sierra desce do cavalo e retira da bainha presa a cela sua pesada montante. Se põe na porta para vigiar. König o segue e dá o primeiro passo para dentro do galpão, onde aguarda o capitão. Este entra e assume a posição de König, que avança assim que vê Cathos passar e subir na primeira grande caixa, empunhando suas adagas.  

  Apesar de ainda estarem firmes o suficiente para um jovem magro andar em cima, as caixas estão enferrujadas e apodrecidas pelo tempo. A maioria parece avariada demais para se abrir.

Ao fundo, numa prateleira presa a parede, havia um pequeno pote de vidro preenchido até a metade com uma substância granulada, de cor negra, com um leve brilho metálico. O pote foi riscado com as letras KI de maneira rústica, com algo que parecia carvão. Era a única coisa no lugar que parecia ter menos de mil anos, embora estivesse empoeirado.
 - Recolham para análise.
 - Positivo.

König põe o arco nas costas e recolhe o pote em um pequeno saco de algodão. O garoto com as adagas pula para uma caixa mais próxima a ele. Ouvem um ranger metálico e a caixa cede, Cathos desaparece.

 Em seguida ouvem um grito abafado por um chiado assustador:
 - PUTAQUEPARIIIIUUUU!!!
 Todos dão um passo pra trás enquanto Cathos começa a chutar a ferrugem podre de dentro pra fora. No primeiro golpe já surge uma rachadura, Cpt. Rizzo e König puxam um de cada lado para abrir mais rápido e libertar o companheiro. Ele sai rapidamente gritando, e com ele um mar de cobras negras começa a jorrar e inundar o local.
 - Pra fora! Rápido! – O capitão grita, tentando matar as que podia com suas botas de cano alto e as katanas. Cortava as cabeças triangulares enquanto os outros corriam por cima dos bichos em direção a saída do galpão.
 - Alguém foi mordido? – Os outros sinalizam que não – Põe fogo nessa merda! – Rizzo grita pra Sierra.
 - Tem certeza? Temos não temos muita porva.
 - Vai, vai, vai! – balançou a mão indo em direção aos cavalos.

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 Um homem varre as folhas úmidas que cobrem calçada de sua barbearia, tranquilamente. Dá bom dia ao padeiro que também varre. Os pombos voltam a voar, já que a chuva não voltou. Mas ainda continua nublado. Pessoas passam em carruagens crepidantes, crianças aproveitam o dia sem aula e tudo volta aos poucos para seu devido lugar.

 O barbeiro para de varrer e exclama quase religiosamente:
 - Grande Líder! Luz do Oriente! O Homem Verdadeiro que Nos Guia Para a Vitória!
 O Sadrhack aperta sua mão.
 - Bom dia Siviglia! Você tem acompanhado as notícias?
 Siviglia tira a boina e coça a cabeça.
 - Que semaninha agitada...
 - Sim... Já ouviu algum boato a respeito?
 - Bem, as pessoas não dizem muito, mesmo porque, estamos muito perto dos ouvidos dos seus homens, Jidoja.
 - Entendo...  - Voltou seus olhos para a rua.

Todos estão levando suas vidas normalmente. Alguns poucos o reconhecem e acenam. O que é algo que só os mais jovens fazem. Os mais velhos, aprenderam com a revolução que não se deve ficar olhando em volta.

Aprenderam a manter os olhos baixos e cuidar da própria vida.

 - Bem, alguns dizem que o velho Bo-gi recebeu o que merecia. Dizem que ele ameaçava comerciantes com propaganda negativa para obter vantagens, e até cobrava para não publicar.
 - Interessante... Não parece do feitio dele. - Levantou uma sobrancelha.
 - A versão mais recorrente é que ele desafiou o senhor, Widaehan Jidoja, enfurecendo a Divina Ciência, que enviou seus raios do céu para explodi-lo em pedaços!
 Sadrhack riu.
 Siviglia lançou-lhe um olhar jocoso.
 - Devemos respeitar a liberdade do povo de crer no que quiser! -  riu-se o Líder.

  Despediram-se.

O povo de Guǎn tā Kahore tem um nível educacional baixíssimo. Mas é claro que o Grande Widaehan Jidoja está trabalhando para cuidar disso. O império burguês que governou por mais de mil anos sempre manteve um nível de instrução muito baixo. Sim, um povo ignorante é muito mais fácil de controlar.
  Já o nosso democraticamente eleito Líder, faz questão de que o povo saiba ler e escrever para aprender a história revolucionária da nossa poderosa nação e também desenvolver-se. Infelizmente, os programas educacionais só despertam o interesse em alguns poucos e só são obrigatórios para as crianças. Fazendo com que a população adulta tenha baixíssima educação formal. A maioria aprendeu a ler muito tarde e abandonou a curtíssima carreira acadêmica para trabalhar no campo ou nas fábricas dos coronéis e aristocratas do Império Chunk.

  O Líder vai até o Palácio, que hoje está mais vazio e silencioso pois poucos departamentos estão funcionando. O sol entra pelas cortinas e descreve uma faixa intermitente dourada deslisando pela fumaça do yeongi recepcionista fumava no saguão.
 - Bom dia, Jidoja.
  Não respondeu. Apenas sorriu para a jovem e apressou-se.

  Pilhas de relatórios da Secretaria de Cultura et Educationis e da Secretaria de Finanças Pvblicas aguardam análise, sem falar em uma medida que altera a prioridade de atendimento médico, que até então era dos homens e mulheres em idade militar para o trabalho nas lavouras e fábricas estatais. Leu por cima, fez algumas ressalvas a lápis, para garantir que as mulheres e idosos sejam priorizados no atendimento.

  Terminado o trabalho matinal, desceu para a sala de jantar onde o almoço seria servido. Cinco "lolas" se enfileiram de olhos baixos enquanto o homem de farda azul se aproxima da mesa. Enquanto isso, seu Conselheiro aguarda na mesa.
  - Boa tarde, Jidoja.
  - O que é importante a ponto de trazer trabalho para o meu almoço?
  - Apenas, algumas questões corriqueiras de segurança nacional, senhor.
  - Pois desenrole de uma vez!