Chegaram até um grande depósito com o teto côncavo, parcialmente descoberto. As portas pareciam ter sido arrancadas por um grande animal, de dentro pra fora. O chão de pedra lisa estava intacto apenas nos cantos. No centro, uma grande árvore ocupava quase todo o espaço interno acima de dois metros, deixando espaço apenas para alguns corredores de caixas de metal grandes o suficiente para um homem morar dentro.
- Verifiquem, vocês sabem como funciona.
- Positivo. – Responderam em uníssono.
Sierra desce do cavalo e retira da bainha presa a cela sua pesada montante. Se põe na porta para vigiar. König o segue e dá o primeiro passo para dentro do galpão, onde aguarda o capitão. Este entra e assume a posição de König, que avança assim que vê Cathos passar e subir na primeira grande caixa, empunhando suas adagas.
Apesar de ainda estarem firmes o suficiente para um jovem magro andar em cima, as caixas estão enferrujadas e apodrecidas pelo tempo. A maioria parece avariada demais para se abrir.
Ao fundo, numa prateleira presa a parede, havia um pequeno pote de vidro preenchido até a metade com uma substância granulada, de cor negra, com um leve brilho metálico. O pote foi riscado com as letras KI de maneira rústica, com algo que parecia carvão. Era a única coisa no lugar que parecia ter menos de mil anos, embora estivesse empoeirado.
- Recolham para análise.
- Positivo.
König põe o arco nas costas e recolhe o pote em um pequeno saco de algodão. O garoto com as adagas pula para uma caixa mais próxima a ele. Ouvem um ranger metálico e a caixa cede, Cathos desaparece.
Em seguida ouvem um grito abafado por um chiado assustador:
- PUTAQUEPARIIIIUUUU!!!
Todos dão um passo pra trás enquanto Cathos começa a chutar a ferrugem podre de dentro pra fora. No primeiro golpe já surge uma rachadura, Cpt. Rizzo e König puxam um de cada lado para abrir mais rápido e libertar o companheiro. Ele sai rapidamente gritando, e com ele um mar de cobras negras começa a jorrar e inundar o local.
- Pra fora! Rápido! – O capitão grita, tentando matar as que podia com suas botas de cano alto e as katanas. Cortava as cabeças triangulares enquanto os outros corriam por cima dos bichos em direção a saída do galpão.
- Alguém foi mordido? – Os outros sinalizam que não – Põe fogo nessa merda! – Rizzo grita pra Sierra.
- Tem certeza? Temos não temos muita porva.
- Vai, vai, vai! – balançou a mão indo em direção aos cavalos.
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Um homem varre as folhas úmidas que cobrem calçada de sua barbearia, tranquilamente. Dá bom dia ao padeiro que também varre. Os pombos voltam a voar, já que a chuva não voltou. Mas ainda continua nublado. Pessoas passam em carruagens crepidantes, crianças aproveitam o dia sem aula e tudo volta aos poucos para seu devido lugar.
O barbeiro para de varrer e exclama quase religiosamente:
- Grande Líder! Luz do Oriente! O Homem Verdadeiro que Nos Guia Para a Vitória!
O Sadrhack aperta sua mão.
- Bom dia Siviglia! Você tem acompanhado as notícias?
Siviglia tira a boina e coça a cabeça.
- Que semaninha agitada...
- Sim... Já ouviu algum boato a respeito?
- Bem, as pessoas não dizem muito, mesmo porque, estamos muito perto dos ouvidos dos seus homens, Jidoja.
- Entendo... - Voltou seus olhos para a rua.
Todos estão levando suas vidas normalmente. Alguns poucos o reconhecem e acenam. O que é algo que só os mais jovens fazem. Os mais velhos, aprenderam com a revolução que não se deve ficar olhando em volta.
Aprenderam a manter os olhos baixos e cuidar da própria vida.
- Bem, alguns dizem que o velho Bo-gi recebeu o que merecia. Dizem que ele ameaçava comerciantes com propaganda negativa para obter vantagens, e até cobrava para não publicar.
- Interessante... Não parece do feitio dele. - Levantou uma sobrancelha.
- A versão mais recorrente é que ele desafiou o senhor, Widaehan Jidoja, enfurecendo a Divina Ciência, que enviou seus raios do céu para explodi-lo em pedaços!
Sadrhack riu.
Siviglia lançou-lhe um olhar jocoso.
- Devemos respeitar a liberdade do povo de crer no que quiser! - riu-se o Líder.
Despediram-se.
O povo de Guǎn tā Kahore tem um nível educacional baixíssimo. Mas é claro que o Grande Widaehan Jidoja está trabalhando para cuidar disso. O império burguês que governou por mais de mil anos sempre manteve um nível de instrução muito baixo. Sim, um povo ignorante é muito mais fácil de controlar.
Já o nosso democraticamente eleito Líder, faz questão de que o povo saiba ler e escrever para aprender a história revolucionária da nossa poderosa nação e também desenvolver-se. Infelizmente, os programas educacionais só despertam o interesse em alguns poucos e só são obrigatórios para as crianças. Fazendo com que a população adulta tenha baixíssima educação formal. A maioria aprendeu a ler muito tarde e abandonou a curtíssima carreira acadêmica para trabalhar no campo ou nas fábricas dos coronéis e aristocratas do Império Chunk.
O Líder vai até o Palácio, que hoje está mais vazio e silencioso pois poucos departamentos estão funcionando. O sol entra pelas cortinas e descreve uma faixa intermitente dourada deslisando pela fumaça do yeongi recepcionista fumava no saguão.
- Bom dia, Jidoja.
Não respondeu. Apenas sorriu para a jovem e apressou-se.
Pilhas de relatórios da Secretaria de Cultura et Educationis e da Secretaria de Finanças Pvblicas aguardam análise, sem falar em uma medida que altera a prioridade de atendimento médico, que até então era dos homens e mulheres em idade militar para o trabalho nas lavouras e fábricas estatais. Leu por cima, fez algumas ressalvas a lápis, para garantir que as mulheres e idosos sejam priorizados no atendimento.
Terminado o trabalho matinal, desceu para a sala de jantar onde o almoço seria servido. Cinco "lolas" se enfileiram de olhos baixos enquanto o homem de farda azul se aproxima da mesa. Enquanto isso, seu Conselheiro aguarda na mesa.
- Boa tarde, Jidoja.
- O que é importante a ponto de trazer trabalho para o meu almoço?
- Apenas, algumas questões corriqueiras de segurança nacional, senhor.
- Pois desenrole de uma vez!
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